quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

ESPECTROS

Era noite

Se bem me lembro, caminhavam depressa ao encontro do outro, chegado ao ponto de contato físico, partiram rumo à perdição.

Inicia-se, neste instante, uma memória não tão lúcida, repleta de ruídos, contudo, há muitos detalhes que eu me lembre. [...] acabo de tomar o segundo gole de vinho, sim, o néctar dos deuses! O clima é propício e a situação requer um distanciamento da lucidez. Os focos de luzes, fragmentados, criam uma atmosfera fantasmagórica, talvez porque eu venha a falar de fantasmas... Espectros que passaram como um sopro e quase que eu não os via... Basta! 
   
Hei de falar:
À beira do abismo... Não, é sarcasmo, se bem que poderia usar sempre o termo abismo para fazer referencia à alcova, na qual se ocultavam. Naquele dia, o primeiro de poucos, soube de que ela planejara o encontro, ele não sabia, mas a tomaria nos braços nos primeiros instantes noturnos. 
Assim foi. Segui-os. Pararam, acomodaram-se, e já se perdiam no primeiro beijo. Foram vários, por isso acendi um cigarro, depois, mais dois... Percebia que o som do meu trago misturava-se aos seus gemidos. Seguia-os em todo momento, inclusive quando os passos tornavam-se largos, não os perdia de vista. Até que repousaram num lugar que em muito me lembrava um bosque solitário, não sei bem... Aproximei-me ao máximo, cheguei a tocá-los, mas fui ignorado. Estavam embriagados demais, frebrís, até, exerciam movimentos ora intensos, ora suaves. Conheciam-se, conectavam-se, em breve eles se apaixonariam. Despedi-me, 
* * *
[...] até encontrá-los horas mais tarde. Ela, “Dame Sans Merci”; ele, vassalo. Papeis assumidos em comum acordo. Caminhavam erroneamente para o fim, pobres! Eu já previa todo o infortúnio. Foram... Subiram escadas, a cada degrau, uma veste era abandonada. – Se estou a delirar?... Não importa! - Devoraram-se como feras famintas, se bem que quanto mais se comiam, maior era a sensação de insaciedade... Atormentam-me as lembranças, porque, alí, ouvi sobre o fim; dizia ele, como dissera um poeta: “é só o começo do fim da nossa vida”. Também me perturba a recordação daqueles gestos insanos, simultaneamente fundidos a rosnares, promessas jamais cumpridas, verdades, as quais certamente ainda não foram esquecidas. Vi tudo de perto, inclusive, estive entre eles - na jaula - como animais que são, instintivamente, notaram minha presença, no entanto, optaram por ignorá-la. Não bebi mais que duas taças de vinho, contudo, estou demasiadamente embriagado. Essas lembranças me causam fadiga, ressaca. Amanhece... Preciso Dormir, e o dia me traz o esquecimento. 
* * 
Aguardei o pôr do sol ansiosamente. Eis que foi anunciada a noite, e torno a beber do mesmo vinho. Nesse pouco tempo, no qual estive dormindo, novos fatos se sucederam [...] e não foram do meu agrado, já que poderiam mudar o desfecho dessa história. Pois bem, o que ocorreu não hei de falar, porque ainda que o enredo sofra alterações, o desfecho é certo, todos os caminhos levam ao infortúnio. Saibam, neste momento, que esta é uma história suicida, da qual não se mata o corpo... 

Narro-vos minhas recordações antes que me fujam à mente:

Foi a primeira vez que tinha ido àquele lugar, não sei bem onde estava situado, não pude ir até lá exatamente, eram muitas as barreiras às quais precisaria enfrentar, logo, desisti. No entanto, contou-me ela (com poucas palavras) todo o ocorrido: era sombrio e vazio, porém, não era frio, pelo contrário. Depois dessa descrição, ela permaneceu num silêncio longo, de horas. Esse silêncio, prolixo, muito me disse, bem mais que palavras. Posso afirmar: amaram-se de corpo e desejo. Durante o período em que ela se manteve silenciosa, observei suas reações, notei que parecia ora
uma fêmea dominadora, ora domada. Sua expressão, quando exprimia um ar de superioridade, aludia-me a uma fera carnívora, extremamente nociva; outra vez, quando demonstrava submissão, cuspia (palavras), respirava ofegante, parecia tentar fugir sem esboçar esforços, como presa que pede para ser comida – no sentido literal: co mi da.
Um desmaio. 
No chão, tornava ao seu estado natural. Boca falou... Disse-me que, posteriormente, fez menção de ir, no entanto, não foi. Despiu-se e o fizera provar das mais nobres sensações, envolveu-o entre seus toques, dos quais ora sentia-se o seco das mãos, ora a umidade dos lábios. Outro longo silencio; não tanto quanto o primeiro.
*
Soube de outras idas, de tantas imundícies ditas, muitas vezes, de boca presa.

Certo dia, o silencio tornou-se pranto e, em meio aos soluços, soube da ultima ida. Misturadas a
estes soluços, palavras eram gritadas de boca que não as cabiam. Não consegui atentar-me para cada palavra dita, porque aquele pranto me inquietava, se bem que não seria preciso tamanha atenção, visto que eu já soubera do que viria a ser dito... 
Comeram-se mais daquela vez. 
Muito! 
Até que, pela fadiga, sentiram-se obrigados a falar de si e falaram em demasia, até. Disse ele que não temia à morte, mas à insanidade. Certos de que caminhavam à loucura, abrigaram-se num ato sensual, não tardiamente, suicidaram-se.
Foram-se.

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