domingo, 26 de março de 2017

Eu não estou bem. Eu não estou…
A angústia tem me tirado tudo.
Tanto faz por onde vou..

Quero gritar, chorar, mas me sinto mudo.
E sinto-me mais triste, porque nada sou.
Caio, apático, nesse poço sem fundo.
[e sem cor]

Não suporto mais essa tristeza,
Meu corpo se contrai à Dor.
[É tudo tão confuso, tudo pesa]
E a morte se apresenta, indolor.

Há tanto que deixar, se eu for?
Não sei.
Não sei.
Sinto que de mim nada brotou.
[É tudo tão confuso, tudo pesa]
Só queria não sentir essa dor.

sábado, 11 de março de 2017

E agora? Minha solidão deu cria,
Não sei se poderei suportar,
Se antes me faltava alegria,
Agora, não sei o que vai restar.

Minha palavra está arredia,
Não consegue mais me levar,
Aos ouvidos de quem me ouvia,
Ou de quem fingia me escutar.

Pela palavra eu fugia
Para não me deixar sufocar
Pela vida que me escorria
Sem que eu pudesse por ela lutar.

Essa dor que arde esfria
A vontade de querer caminhar
De mãos dadas com a melancolia,
Sento-me, e vejo a vida passar.

sábado, 4 de março de 2017

Que a saudade não me esmague o peito.
Já há tanta dor para se carregar.
A vida já não tem o mesmo jeito,
Quando não é vista pelo seu olhar.

Há tristeza na falta do teu cheiro,
Há desespero, se dele eu lembrar,
A angústia é meu Navio negreiro
Pelo mar da tua ausência a navegar.

Há quanto tempo já não te vejo,
Nem em sonhos vens me visitar,
As lembranças, pouco manejo,
As fotos começaram a despigmentar.

Por tempo a morte foi meu desejo,
Para a distância entre nós encurtar.

sexta-feira, 3 de março de 2017

DEUSTRUIDOR

Faça um desejo
Eu tenho a chave do paraíso
Me deixe cegar os seus olhos
E comece a sonhar com ruas de ouro

Tente acertar o alvo
Ou eles acertarão sua cabeça
Dobre os seus joelhos
E te darão uma coroa de espinhos

Você é massa de manobra
Você é o que eles quiserem que seja
É impossível limpar a merda
Que prende seus pés nesse caminho

Filhos-da-puta-sem-salvação
Não vão conseguir escapar ilesos
Se eu estiver sorrindo pra você
É porque estou tentando te foder

Eu me instalei dentro de você como um parasita
E nada vai me fazer sair até que eu acabe
Eu posso dizer que tenho um coelho na cartola
Porque você nunca vai duvidar de mim

Eu tive uma revelação esta noite
Nada é pior do que o que eu tenho guardado pra você
Um anjo me mostrou o caminho esta noite
Nada é pior do que o inferno que eu tenho pra te mostrar

O que importa mais do que o lucro?
O que importa mais do que o que você tem pra me dar?
O que importa agora que você se fodeu tanto quanto eu?
O que importa na porra de um mundo como o nosso?

sábado, 25 de fevereiro de 2017

CARRETAS DESGOVERNADAS

      
        Naquela noite, em minha casa, me encontrei envolto em trevas. A energia tinha acabado no bairro inteiro, e eu mal pude enxergar os degraus da entrada quando cheguei. Utilizei a lanterna do celular pra me guiar e subi os degraus um a um. Mais tarde, logo quando a luz voltou, uma reportagem na TV fez uma explicação detalhada a respeito do apagão.
Causado pela batida entre um ônibus e uma carreta, o acidente não apenas provocou a queda de um gerador, mas também deixou a avenida principal banhada de sangue e repleta de pedaços de gente. No momento da colisão, o ônibus foi jogado pra um lado e parou num poste — boa parte dos passageiros morreu na hora. A carreta, no entanto, continuou arrastando todos os que estavam no caminho: mulheres, crianças, idosos. Carretas desgovernadas não poupam ninguém.
         Quando a reportagem acabou, resolvi mudar de canal. Me ative a um programa no qual um pastor exagerava nos gestos e esbravejava num microfone. Depois de trinta segundos, eu já não aguentava mais ver aquilo. Desliguei a TV e joguei o controle remoto pro lado. Me levantei e fui até o interruptor da sala. Apaguei a luz. 
Submerso nas trevas mais uma vez, comecei a pensar melhor sobre o programa do pastor, sobre dinheiro, sobre o crescimento das igrejas e, mais ainda, sobre o impacto disso tudo no mundo. Como seria a vida se não houvesse religiões? Será que, como muitos acreditam, haveria mais guerras se as religiões não existissem? E por que há guerras em nome da religião? Essas e outras perguntas, que com certeza outras pessoas já se fizeram, ricocheteavam em minha mente, me causando certo mal-estar.
Por volta das 23h, quando me preparava pra ir deitar, precisei matar uma curiosidade a qual muitos achariam repugnante — ou fingiriam achar. Sim, costumamos dissimular certos tipos de desejos. Abri o computador e procurei por fotos do acidente em meu bairro. Sabia que existia um blog cujo conteúdo era inteiramente voltado para esse tipo de notícia (com o único intuito de atrair visualizações, é claro). Não fiquei surpreso ao abrir a página do blog e ver as fotografias da tragédia apresentadas de forma explícita.  
Ao desligar o PC, fiz instantaneamente uma conexão entre as coisas que tinha visto na internet e o programa religioso na TV. “Carretas desgovernadas não poupam ninguém.” Foi o que me veio à cabeça pouco antes de pegar no sono.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

… é, eu sei, há quem com um sorriso tente
A tristeza que se sente, esconder.
E cultiva no vazio a semente
Onde sentirá o desespero florescer.

Mas o olhar, exausto, já não mente,
E sente uma lágrima a dor ceder,
Avisando: a vida está cada dia doente,
Já não aguento ver tudo em volta morrer.
***
Mas na luta por ser forte é inútil,
Sozinho, tudo querer suportar,
A angústia torna a vida fútil,
A solidão, que grita, só faz aumentar.

E o suicídio se mostra duramente útil
Para a dor da alma arrancar.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

ESPECTROS

Era noite

Se bem me lembro, caminhavam depressa ao encontro do outro, chegado ao ponto de contato físico, partiram rumo à perdição.

Inicia-se, neste instante, uma memória não tão lúcida, repleta de ruídos, contudo, há muitos detalhes que eu me lembre. [...] acabo de tomar o segundo gole de vinho, sim, o néctar dos deuses! O clima é propício e a situação requer um distanciamento da lucidez. Os focos de luzes, fragmentados, criam uma atmosfera fantasmagórica, talvez porque eu venha a falar de fantasmas... Espectros que passaram como um sopro e quase que eu não os via... Basta! 
   
Hei de falar:
À beira do abismo... Não, é sarcasmo, se bem que poderia usar sempre o termo abismo para fazer referencia à alcova, na qual se ocultavam. Naquele dia, o primeiro de poucos, soube de que ela planejara o encontro, ele não sabia, mas a tomaria nos braços nos primeiros instantes noturnos. 
Assim foi. Segui-os. Pararam, acomodaram-se, e já se perdiam no primeiro beijo. Foram vários, por isso acendi um cigarro, depois, mais dois... Percebia que o som do meu trago misturava-se aos seus gemidos. Seguia-os em todo momento, inclusive quando os passos tornavam-se largos, não os perdia de vista. Até que repousaram num lugar que em muito me lembrava um bosque solitário, não sei bem... Aproximei-me ao máximo, cheguei a tocá-los, mas fui ignorado. Estavam embriagados demais, frebrís, até, exerciam movimentos ora intensos, ora suaves. Conheciam-se, conectavam-se, em breve eles se apaixonariam. Despedi-me, 
* * *
[...] até encontrá-los horas mais tarde. Ela, “Dame Sans Merci”; ele, vassalo. Papeis assumidos em comum acordo. Caminhavam erroneamente para o fim, pobres! Eu já previa todo o infortúnio. Foram... Subiram escadas, a cada degrau, uma veste era abandonada. – Se estou a delirar?... Não importa! - Devoraram-se como feras famintas, se bem que quanto mais se comiam, maior era a sensação de insaciedade... Atormentam-me as lembranças, porque, alí, ouvi sobre o fim; dizia ele, como dissera um poeta: “é só o começo do fim da nossa vida”. Também me perturba a recordação daqueles gestos insanos, simultaneamente fundidos a rosnares, promessas jamais cumpridas, verdades, as quais certamente ainda não foram esquecidas. Vi tudo de perto, inclusive, estive entre eles - na jaula - como animais que são, instintivamente, notaram minha presença, no entanto, optaram por ignorá-la. Não bebi mais que duas taças de vinho, contudo, estou demasiadamente embriagado. Essas lembranças me causam fadiga, ressaca. Amanhece... Preciso Dormir, e o dia me traz o esquecimento. 
* * 
Aguardei o pôr do sol ansiosamente. Eis que foi anunciada a noite, e torno a beber do mesmo vinho. Nesse pouco tempo, no qual estive dormindo, novos fatos se sucederam [...] e não foram do meu agrado, já que poderiam mudar o desfecho dessa história. Pois bem, o que ocorreu não hei de falar, porque ainda que o enredo sofra alterações, o desfecho é certo, todos os caminhos levam ao infortúnio. Saibam, neste momento, que esta é uma história suicida, da qual não se mata o corpo... 

Narro-vos minhas recordações antes que me fujam à mente:

Foi a primeira vez que tinha ido àquele lugar, não sei bem onde estava situado, não pude ir até lá exatamente, eram muitas as barreiras às quais precisaria enfrentar, logo, desisti. No entanto, contou-me ela (com poucas palavras) todo o ocorrido: era sombrio e vazio, porém, não era frio, pelo contrário. Depois dessa descrição, ela permaneceu num silêncio longo, de horas. Esse silêncio, prolixo, muito me disse, bem mais que palavras. Posso afirmar: amaram-se de corpo e desejo. Durante o período em que ela se manteve silenciosa, observei suas reações, notei que parecia ora
uma fêmea dominadora, ora domada. Sua expressão, quando exprimia um ar de superioridade, aludia-me a uma fera carnívora, extremamente nociva; outra vez, quando demonstrava submissão, cuspia (palavras), respirava ofegante, parecia tentar fugir sem esboçar esforços, como presa que pede para ser comida – no sentido literal: co mi da.
Um desmaio. 
No chão, tornava ao seu estado natural. Boca falou... Disse-me que, posteriormente, fez menção de ir, no entanto, não foi. Despiu-se e o fizera provar das mais nobres sensações, envolveu-o entre seus toques, dos quais ora sentia-se o seco das mãos, ora a umidade dos lábios. Outro longo silencio; não tanto quanto o primeiro.
*
Soube de outras idas, de tantas imundícies ditas, muitas vezes, de boca presa.

Certo dia, o silencio tornou-se pranto e, em meio aos soluços, soube da ultima ida. Misturadas a
estes soluços, palavras eram gritadas de boca que não as cabiam. Não consegui atentar-me para cada palavra dita, porque aquele pranto me inquietava, se bem que não seria preciso tamanha atenção, visto que eu já soubera do que viria a ser dito... 
Comeram-se mais daquela vez. 
Muito! 
Até que, pela fadiga, sentiram-se obrigados a falar de si e falaram em demasia, até. Disse ele que não temia à morte, mas à insanidade. Certos de que caminhavam à loucura, abrigaram-se num ato sensual, não tardiamente, suicidaram-se.
Foram-se.