domingo, 26 de março de 2017

Eu não estou bem. Eu não estou…
A angústia tem me tirado tudo.
Tanto faz por onde vou..

Quero gritar, chorar, mas me sinto mudo.
E sinto-me mais triste, porque nada sou.
Caio, apático, nesse poço sem fundo.
[e sem cor]

Não suporto mais essa tristeza,
Meu corpo se contrai à Dor.
[É tudo tão confuso, tudo pesa]
E a morte se apresenta, indolor.

Há tanto que deixar, se eu for?
Não sei.
Não sei.
Sinto que de mim nada brotou.
[É tudo tão confuso, tudo pesa]
Só queria não sentir essa dor.

sábado, 11 de março de 2017

E agora? Minha solidão deu cria,
Não sei se poderei suportar,
Se antes me faltava alegria,
Agora, não sei o que vai restar.

Minha palavra está arredia,
Não consegue mais me levar,
Aos ouvidos de quem me ouvia,
Ou de quem fingia me escutar.

Pela palavra eu fugia
Para não me deixar sufocar
Pela vida que me escorria
Sem que eu pudesse por ela lutar.

Essa dor que arde esfria
A vontade de querer caminhar
De mãos dadas com a melancolia,
Sento-me, e vejo a vida passar.

sábado, 4 de março de 2017

Que a saudade não me esmague o peito.
Já há tanta dor para se carregar.
A vida já não tem o mesmo jeito,
Quando não é vista pelo seu olhar.

Há tristeza na falta do teu cheiro,
Há desespero, se dele eu lembrar,
A angústia é meu Navio negreiro
Pelo mar da tua ausência a navegar.

Há quanto tempo já não te vejo,
Nem em sonhos vens me visitar,
As lembranças, pouco manejo,
As fotos começaram a despigmentar.

Por tempo a morte foi meu desejo,
Para a distância entre nós encurtar.

sexta-feira, 3 de março de 2017

DEUSTRUIDOR

Faça um desejo
Eu tenho a chave do paraíso
Me deixe cegar os seus olhos
E comece a sonhar com ruas de ouro

Tente acertar o alvo
Ou eles acertarão sua cabeça
Dobre os seus joelhos
E te darão uma coroa de espinhos

Você é massa de manobra
Você é o que eles quiserem que seja
É impossível limpar a merda
Que prende seus pés nesse caminho

Filhos-da-puta-sem-salvação
Não vão conseguir escapar ilesos
Se eu estiver sorrindo pra você
É porque estou tentando te foder

Eu me instalei dentro de você como um parasita
E nada vai me fazer sair até que eu acabe
Eu posso dizer que tenho um coelho na cartola
Porque você nunca vai duvidar de mim

Eu tive uma revelação esta noite
Nada é pior do que o que eu tenho guardado pra você
Um anjo me mostrou o caminho esta noite
Nada é pior do que o inferno que eu tenho pra te mostrar

O que importa mais do que o lucro?
O que importa mais do que o que você tem pra me dar?
O que importa agora que você se fodeu tanto quanto eu?
O que importa na porra de um mundo como o nosso?

sábado, 25 de fevereiro de 2017

CARRETAS DESGOVERNADAS

      
        Naquela noite, em minha casa, me encontrei envolto em trevas. A energia tinha acabado no bairro inteiro, e eu mal pude enxergar os degraus da entrada quando cheguei. Utilizei a lanterna do celular pra me guiar e subi os degraus um a um. Mais tarde, logo quando a luz voltou, uma reportagem na TV fez uma explicação detalhada a respeito do apagão.
Causado pela batida entre um ônibus e uma carreta, o acidente não apenas provocou a queda de um gerador, mas também deixou a avenida principal banhada de sangue e repleta de pedaços de gente. No momento da colisão, o ônibus foi jogado pra um lado e parou num poste — boa parte dos passageiros morreu na hora. A carreta, no entanto, continuou arrastando todos os que estavam no caminho: mulheres, crianças, idosos. Carretas desgovernadas não poupam ninguém.
         Quando a reportagem acabou, resolvi mudar de canal. Me ative a um programa no qual um pastor exagerava nos gestos e esbravejava num microfone. Depois de trinta segundos, eu já não aguentava mais ver aquilo. Desliguei a TV e joguei o controle remoto pro lado. Me levantei e fui até o interruptor da sala. Apaguei a luz. 
Submerso nas trevas mais uma vez, comecei a pensar melhor sobre o programa do pastor, sobre dinheiro, sobre o crescimento das igrejas e, mais ainda, sobre o impacto disso tudo no mundo. Como seria a vida se não houvesse religiões? Será que, como muitos acreditam, haveria mais guerras se as religiões não existissem? E por que há guerras em nome da religião? Essas e outras perguntas, que com certeza outras pessoas já se fizeram, ricocheteavam em minha mente, me causando certo mal-estar.
Por volta das 23h, quando me preparava pra ir deitar, precisei matar uma curiosidade a qual muitos achariam repugnante — ou fingiriam achar. Sim, costumamos dissimular certos tipos de desejos. Abri o computador e procurei por fotos do acidente em meu bairro. Sabia que existia um blog cujo conteúdo era inteiramente voltado para esse tipo de notícia (com o único intuito de atrair visualizações, é claro). Não fiquei surpreso ao abrir a página do blog e ver as fotografias da tragédia apresentadas de forma explícita.  
Ao desligar o PC, fiz instantaneamente uma conexão entre as coisas que tinha visto na internet e o programa religioso na TV. “Carretas desgovernadas não poupam ninguém.” Foi o que me veio à cabeça pouco antes de pegar no sono.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

… é, eu sei, há quem com um sorriso tente
A tristeza que se sente, esconder.
E cultiva no vazio a semente
Onde sentirá o desespero florescer.

Mas o olhar, exausto, já não mente,
E sente uma lágrima a dor ceder,
Avisando: a vida está cada dia doente,
Já não aguento ver tudo em volta morrer.
***
Mas na luta por ser forte é inútil,
Sozinho, tudo querer suportar,
A angústia torna a vida fútil,
A solidão, que grita, só faz aumentar.

E o suicídio se mostra duramente útil
Para a dor da alma arrancar.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

ESPECTROS

Era noite

Se bem me lembro, caminhavam depressa ao encontro do outro, chegado ao ponto de contato físico, partiram rumo à perdição.

Inicia-se, neste instante, uma memória não tão lúcida, repleta de ruídos, contudo, há muitos detalhes que eu me lembre. [...] acabo de tomar o segundo gole de vinho, sim, o néctar dos deuses! O clima é propício e a situação requer um distanciamento da lucidez. Os focos de luzes, fragmentados, criam uma atmosfera fantasmagórica, talvez porque eu venha a falar de fantasmas... Espectros que passaram como um sopro e quase que eu não os via... Basta! 
   
Hei de falar:
À beira do abismo... Não, é sarcasmo, se bem que poderia usar sempre o termo abismo para fazer referencia à alcova, na qual se ocultavam. Naquele dia, o primeiro de poucos, soube de que ela planejara o encontro, ele não sabia, mas a tomaria nos braços nos primeiros instantes noturnos. 
Assim foi. Segui-os. Pararam, acomodaram-se, e já se perdiam no primeiro beijo. Foram vários, por isso acendi um cigarro, depois, mais dois... Percebia que o som do meu trago misturava-se aos seus gemidos. Seguia-os em todo momento, inclusive quando os passos tornavam-se largos, não os perdia de vista. Até que repousaram num lugar que em muito me lembrava um bosque solitário, não sei bem... Aproximei-me ao máximo, cheguei a tocá-los, mas fui ignorado. Estavam embriagados demais, frebrís, até, exerciam movimentos ora intensos, ora suaves. Conheciam-se, conectavam-se, em breve eles se apaixonariam. Despedi-me, 
* * *
[...] até encontrá-los horas mais tarde. Ela, “Dame Sans Merci”; ele, vassalo. Papeis assumidos em comum acordo. Caminhavam erroneamente para o fim, pobres! Eu já previa todo o infortúnio. Foram... Subiram escadas, a cada degrau, uma veste era abandonada. – Se estou a delirar?... Não importa! - Devoraram-se como feras famintas, se bem que quanto mais se comiam, maior era a sensação de insaciedade... Atormentam-me as lembranças, porque, alí, ouvi sobre o fim; dizia ele, como dissera um poeta: “é só o começo do fim da nossa vida”. Também me perturba a recordação daqueles gestos insanos, simultaneamente fundidos a rosnares, promessas jamais cumpridas, verdades, as quais certamente ainda não foram esquecidas. Vi tudo de perto, inclusive, estive entre eles - na jaula - como animais que são, instintivamente, notaram minha presença, no entanto, optaram por ignorá-la. Não bebi mais que duas taças de vinho, contudo, estou demasiadamente embriagado. Essas lembranças me causam fadiga, ressaca. Amanhece... Preciso Dormir, e o dia me traz o esquecimento. 
* * 
Aguardei o pôr do sol ansiosamente. Eis que foi anunciada a noite, e torno a beber do mesmo vinho. Nesse pouco tempo, no qual estive dormindo, novos fatos se sucederam [...] e não foram do meu agrado, já que poderiam mudar o desfecho dessa história. Pois bem, o que ocorreu não hei de falar, porque ainda que o enredo sofra alterações, o desfecho é certo, todos os caminhos levam ao infortúnio. Saibam, neste momento, que esta é uma história suicida, da qual não se mata o corpo... 

Narro-vos minhas recordações antes que me fujam à mente:

Foi a primeira vez que tinha ido àquele lugar, não sei bem onde estava situado, não pude ir até lá exatamente, eram muitas as barreiras às quais precisaria enfrentar, logo, desisti. No entanto, contou-me ela (com poucas palavras) todo o ocorrido: era sombrio e vazio, porém, não era frio, pelo contrário. Depois dessa descrição, ela permaneceu num silêncio longo, de horas. Esse silêncio, prolixo, muito me disse, bem mais que palavras. Posso afirmar: amaram-se de corpo e desejo. Durante o período em que ela se manteve silenciosa, observei suas reações, notei que parecia ora
uma fêmea dominadora, ora domada. Sua expressão, quando exprimia um ar de superioridade, aludia-me a uma fera carnívora, extremamente nociva; outra vez, quando demonstrava submissão, cuspia (palavras), respirava ofegante, parecia tentar fugir sem esboçar esforços, como presa que pede para ser comida – no sentido literal: co mi da.
Um desmaio. 
No chão, tornava ao seu estado natural. Boca falou... Disse-me que, posteriormente, fez menção de ir, no entanto, não foi. Despiu-se e o fizera provar das mais nobres sensações, envolveu-o entre seus toques, dos quais ora sentia-se o seco das mãos, ora a umidade dos lábios. Outro longo silencio; não tanto quanto o primeiro.
*
Soube de outras idas, de tantas imundícies ditas, muitas vezes, de boca presa.

Certo dia, o silencio tornou-se pranto e, em meio aos soluços, soube da ultima ida. Misturadas a
estes soluços, palavras eram gritadas de boca que não as cabiam. Não consegui atentar-me para cada palavra dita, porque aquele pranto me inquietava, se bem que não seria preciso tamanha atenção, visto que eu já soubera do que viria a ser dito... 
Comeram-se mais daquela vez. 
Muito! 
Até que, pela fadiga, sentiram-se obrigados a falar de si e falaram em demasia, até. Disse ele que não temia à morte, mas à insanidade. Certos de que caminhavam à loucura, abrigaram-se num ato sensual, não tardiamente, suicidaram-se.
Foram-se.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Lá vem em preto e branco,
Meu carnaval, pelas ruas a cantar,
Evocando-me o triste pranto
Para a uma multidão me juntar.

Cada um carregando uma história
Amarga, nos olhos, querendo contar.
Porque sabemos: essa dor é escória,
Que nos leva, se a gente não a levar.

E no bloco da alegria,
Minha tristeza parece não se encaixar,
Mas sigo, mesmo assim, a folia:
Dói menos, que a tristeza sozinho enfrentar.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

AVISO AO LEITOR

           
        Quando este blog começou a ser planejado, nos idos de 2015, o grupo original de escritores, reunido com o intuito de fazer uma preparação antes de divulgar seus textos na internet, dirigiu-se até um local que, por questões de segurança, não será divulgado aqui. A ideia era passar três dias praticando uma espécie de “ritual de purificação” em uma área de mata fechada de Pernambuco.
Porém, após quatro dias, os escritores embrenhados não haviam retornado e nem dado notícias. Preocupados, os familiares iniciaram algumas buscas no local com a ajuda da polícia. No entanto, na região onde o grupo deveria estar, apenas uma pista foi achada: um pequeno diário.  
Até hoje, a polícia não conseguiu esclarecer o caso, e as pessoas desaparecidas nunca foram localizadas. As barracas estavam intactas; os pertences foram achados todos em ordem. No terreno onde as barracas se encontravam, não havia vestígios que indicassem sinal de violência.
O blog “Taverna da Literatura” (nome escolhido em 2015, mas só agora utilizado) chegou até nós através do filho de um dos desaparecidos, que nos fez o convite para publicar nossas obras (poemas, contos etc.) aqui. Ele organizou a página e nos deixou responsáveis por tocar o projeto adiante. Abaixo, o conteúdo do diário encontrado na mata, com o texto integral (que o autor deixou inacabado) no qual é descrita uma experiência perturbadora.


*************************

“1º dia: 10 de janeiro de 2015.
10h30min. Neste primeiro dia de purificação, fizemos um reconhecimento do local assim que chegamos. Já estávamos aqui por volta das 7 da manhã e tivemos sorte de encontrar uma área que fica próxima de um lago de água muito clara. Depois de armarmos as barracas, ficamos meditando, em grupo, por cerca de uma hora. A ideia é que entremos em contato com a natureza e recebamos todas as coisas boas que ela nos tem a oferecer.
19h45min. Acabamos de jantar e logo mais iremos discutir sobre o nosso dia. Confesso que não estou com muita vontade de escrever hoje. Estamos em três casais e mais uma moça, Viviana, esplêndida escritora de contos no estilo Edgar Allan Poe. A maioria de nós está adorando a experiência. Porém, ao que parece, Viviana descobriu estar grávida através de um daqueles testes de gravidez vendidos em farmácia. Nada confirmado ainda. No entanto, a jovem anda muito deprimida. Está mais calada do que o normal.

2º dia: 11 de janeiro de 2015.
4h15min. Hoje eu acordei muito mais cedo do que os outros. Estava escutando batidas do lado de fora da barraca. Minha esposa não ouviu nada porque tem sono de pedra. Fiquei aliviado por ela não ter se acordado, pois é do tipo que se assusta facilmente. É provável que o ruído lá fora tenha sido causado por algum animal procurando comida.
11h40min. Hoje almoçamos antes do meio-dia. A longa caminhada que fizemos de manhã nos abriu o apetite. Confesso que não sou fã de caminhadas, mas a minha esposa insistiu tanto que eu acabei indo junto. Preferia ter ficado escrevendo. Tenho um livro de contos pra acabar.
19h. Viviana passou mal e está deitada. Sugeri que encerrássemos o passeio e levássemos a moça ao hospital, mas ela mesma discordou da minha proposição. Disse que já está melhor e prefere ficar até o terceiro dia.

3º dia: 12 de janeiro de 2015.
1h15min. Não acredito que estou ouvindo barulhos. Acabei perdendo o sono. Pensei que se tratasse de algum bicho. Mas agora já não tenho tanta certeza. Vou lá fora dar uma olhada e, quando voltar, espero conseguir dormir outra vez, porque o pessoal vai se levantar cedo hoje.
1h38min. Lá fora não há ninguém, porém escuto sons de passos. Às vezes parecem distantes; outras vezes, mais próximos. Meu coração disparou enquanto eu estava lá fora. Está fazendo frio agora, o que não é nem um pouco normal neste lugar. Me sinto muito cansado.  
2h15min. Ouvi os gritos de Viviana e saí correndo até sua barraca. Ela não estava lá. Fui atrás dos outros para tomarmos alguma providência. Todos pareciam abismados com o meu relato. Disseram não ter ouvido os gritos da moça! Voltamos, todos juntos, à barraca de Viviana, e, para a nossa surpresa, ela tinha retornado. Na verdade, ela nos disse que em nenhum momento havia saído, que estava dormindo o tempo todo e não escutara grito algum. Os outros devem ter achado que eu estou enlouquecendo.
2h35min. O céu está nublado. Tomei um pouco de café e agora estou em estado de alerta. Não consigo mais dormir, então vou continuar escrevendo quando der vontade. Minha esposa parece tranquila apesar de tudo. Dorme a sono solto. Menos mal.
2h52min. Acabei de levar um baita susto. Os outros chegaram aqui de supetão pra falar comigo. Estão todos assustados. Um dos amigos achou ossos humanos perto da minha barraca. Viviana sente dores fortes. Vamos tentar tirá-la daqui imediatamente.   
3h20min. Viviana fugiu na escuridão da mata. Não sei explicar o que está acontecendo aqui. Tudo se transformou num pesadelo. Estamos todos nervosos.
3h55min. Um dos amigos viu a moça correndo na mata e foi atrás dela. Agora são dois desaparecidos. Rastros de sangue estão por toda a parte. Ninguém sabe mais o que fazer. Os celulares não funcionam. Decidimos que ficaríamos todos juntos esperando o dia amanhecer, mas, com os ânimos exaltados, cada um resolveu ficar na sua. Minha esposa começou a agir de modo estranho. Teve uma crise de choro e logo em seguida vomitou um líquido preto. Agora ela parece outra pessoa. Não quer que eu a toque. E o barulho lá fora está ficando mais intens"

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Ando sempre daqui para ali
Na esperança de que algo aconteça.
De súbito, eu sinta o que nunca senti,
E o desespero, ao fim, não me enlouqueça.

Se paro, a angústia me pesa o corpo,
Como se fosse eu a minha doença,
Os olhos estáticos pedem socorro
E a solidão implora que alguém apareça.

No fim, uma única verdade sempre resiste,
Porque a dor  me impede que eu a esqueça:
Ninguém entende como é estar sempre triste,
Mesmo que a felicidade às vezes aconteça.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Se não fosse essa angústia
Tentando a vida me sufocar,
Muita coisa eu mudaria,
Não viveria pela morte a esperar.

Mas essa tristeza é desespero
E me faz qualquer coisa aceitar,
Mesmo que me machuquem forte o peito,
Não tenho ânimo para delas me afastar.

E vivo de forma fingida
A dor que sempre me faz chorar,
E nas lágrimas encontro saída,
Porque não tenho coragem da vida tirar.

A CURA


        A notícia mais divulgada naquele dia nos jornais de maior circulação do planeta foi sobre a empresa multinacional criadora do “Microchip da Felicidade” e sua incrível ascensão e domínio do mercado mundial.
Quando o microchip surgiu, ninguém esperava que ele fosse ser difundido tão depressa. Implantado no cérebro, o avançado circuito eletrônico miniaturizado se espalhou tão rápido que a empresa criadora e distribuidora do produto logo se tornou a mais poderosa da Terra. Em questão de semanas, o mundo todo já tinha acesso à novidade eletrônica. Vendido a preço popular, a nova maravilha da tecnologia prometia não apenas acabar com tristezas brandas e corriqueiras, mas também curar as depressões mais severas e duradouras instantaneamente, como num passe de mágica. Parecia a solução de todos os nossos problemas.
Por toda parte, as pessoas buscavam, cada vez mais, eliminar a tristeza de suas vidas de forma fácil e definitiva. Desse modo, graças a sua eficácia, o microchip passou a ser reverenciado como um milagre até mesmo pelas igrejas. A partir dessas transformações, os índices de depressão caíram drasticamente e, com isso, as taxas de suicídio em todo o planeta também diminuíram. Em qualquer lugar — e a qualquer hora —, as pessoas estavam alegres e festejando não se sabe o quê. "É um mundo perfeito!", divulgava o outdoor gigantesco numa avenida movimentada, comemorando a nova era da “felicidade comprada”. Finalmente não havia mais motivo pra melancolia. Certa vez, durante o funeral de uma menina, os pais da falecida foram vistos esbanjando sorrisos, pareciam mesmo estar numa festa. A garota havia sido estuprada e brutalmente assassinada por um tio nos fundos de casa. Com o tempo, esse tipo de situação passou a ser comum.
Além disso, os livros de escritores com temas lúgubres como Augusto dos Anjos foram todos retirados das prateleiras e incinerados — tamanho era o medo de que um "surto de tristeza" voltasse a assolar o planeta, desestabilizando aquele "harmonioso ambiente" o qual fora artificialmente construído. E assim, as pessoas rapidamente se acomodaram, tornaram-se escravas da felicidade. Esse panorama de bem-estar ininterrupto converteu a humanidade quase toda em uma massa incapaz de se revoltar contra qualquer tipo de problema. Mas ainda restava um pequeno grupo que estava completamente consciente dessa situação.
O aumento de casos de governantes envolvidos com abuso econômico e de poder passou a ser encarado como uma consequência natural da vida em sociedade. Mesmo os episódios de corrupção mais escandalosos começaram a ser vistos como a simples consequência da "vontade de Deus" e, por isso, não deveriam ser questionados. Não importava mais se o mundo estava desmoronando em nossas cabeças. O "Microchip da Felicidade", enfim, não era apenas a cura para a melancolia, ele definitivamente nos transformara em seres sem vontade própria, verdadeiros autômatos imbecilizados.
O real motivo por trás de todo esse contentamento idiotizante, entretanto, nunca fora descoberto. Na verdade, o inovador e milagroso item tecnológico havia sido criado a partir de uma parceria internacional entre alguns políticos e homens de negócios os quais conseguiram atingir o seu objetivo de domar e escravizar, de uma vez por todas, uma humanidade que agora já não era mais tão humana assim.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Dói! Essa dor que me tem.
Que dor?
Não sei; mas está doendo.
Dói mais e mais.
Agora já não dói mais.
Mas a dor ainda está lá
Calando meu grito.
Tenho medo,
Mas, não sei de quê.
Que dor é essa que deixa de ser dor por doer demais?
Um minuto:
Inspira...
Respira...
Mãos encaliçadas acariciam minha alma.
Que alma?
O que trago pode assim ser chamado?
Silêncio.
Mórbido, abro os olhos para mais um dia,
Felizmente, um dia a menos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Há em cada canto a melancolia,
Mesmo desatento, outra coisa não sei cantar,
Já não lembro, nessa vida, da alegria,
Quero apenas poder continuar sonhar.

Os olhos de profunda agonia
Sentido não conseguem encontrar
Na vida, que minh’alma, sem rumo, caminha,
Vez ou outra, em dor, querendo parar.

Do que me vale companhia
Se da minha dor não posso falar?
A morte é quem me cria,
E só ela pode me salvar.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Quanta dor há em meu peito,
Vez ou outra impossível dissimular,
A tristeza que sinto dá sempre um jeito
De me fazer lágrimas derramar.

Mudo os pensamentos em desespero,
Tentando o choro evitar,
Mas as feridas que trago aqui dentro
Insistem em querer falar.

Mas o que dizem não é ouvido,
E o desespero só faz aumentar.
A solidão sussurra: Não há outro jeito.
Tens que desta dor se libertar.

Enchendo de coragem o medo,
Ando por onde não quis caminhar,
E sinto no corpo o manto gélido,
Que a morte veio me entregar.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

SETE

Sete demônios sussurrando
Sete correntes eu carregarei
Sete trombetas do Apocalipse
Sete pragas que eu roguei
Sete mares, sete léguas
Sete mortes que eu causei
Sete dores por sete dias
Sete vezes te odiei
Sete garotas suicidas
Sete bocas que eu costurei
Sete coisas que Deus proíbe
Sete pecados cometerei
Sete velas pra sete mortos
Sete cálices tomei
Sete cruzes em sete ruas
Sete feitiços lancei
Sete abortos, sete lágrimas
Sete drogas eu provei
Sete noites de pesadelo
Sete dedos decepei
Sete sonhos, sete perdas
Sete males te desejei

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Ah, quem dera!
Quem dera fosse tristeza
Daquelas que o vento traz,
E ele mesmo leva,
O nome para este mal de face singela,
Aparentando-me ser doce e serena,
Enquanto minha alma de desespero arrebenta,
E seguro o grito,
Que em lágrimas, por pouco, não encerra.
...Ah, quem dera!
Quem dera
Esse mal que de mim há anos se alimenta,
Me permitisse de suas garras me ver liberta
E não sentir a vida como se fosse uma doença.
[Ah, quem dera.]
Quem dera isso fosse só tristeza.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Carta de despedida:
Breve, como assim foi a vida.

Ah, quando meu fúnebre canto,
Emudecer-me a vida de canto a canto,
Secando-me os tristes olhos em pranto,
Causarei nos teus olhos dor e espanto.
Pudera eu ter outro jeito, mesmo te amando tanto.
Juro que tentei durante todos esses anos
Fingir que minha tristeza era apenas um engano,
E segui ao teu lado, à noite o choro sufocando.
(Te amei de verdade!)
Enquanto minha solidão ia se alastrando,
Mesmo sendo tu, na vida, meu único encanto.
Mas já era tarde, e o tempo foi se passando,
Agora, eis a hora, com a morte me encontro.
Adeus, e não permita que eu te leve, também, os sonhos.


Em lágrimas, desacreditado, suspiro,
Embaixo do chuveiro, afogando o grito:
“Amanhã, hoje não. Amanhã eu vivo”.
Preciso dormir, esquecer desse vazio que sinto,
E da angústia, que me arranca os sentidos.
Abandono-me na cama, o corpo, pelo cansaço vencido,
Esperando o sono, correndo contra o tempo,
(Perdido)
Enquanto na alma faço um novo remendo.
Mas as contas a pagar, próximas do vencimento,
Intensificou o choro e inundou-me o pensamento.
E não pude esquecer, ao menos por um momento,
Que em vão estou vivendo.